Doutor Bolinha

  
                                                         DOUTOR BOLINHA
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                                                                          Heródoto barbeiro
 
 
                                                         O grupo de jornalistas da redação da TV Caramelo deTaiaçupeba entrou em pânico quando o repórter Zé Ferro entrou correndo, esbaforido e gritando que tinham seqüestrado o médico do posto municipal de saúde. O doutor Eduardo Brasolin tinha sumido sem deixar nenhum sinal. O repórter, conhecido pela excelência das matérias investigativas que apresentava no Jornal da Caramelo, convocou todos para uma checagem geral. Imediatamente o apurador ligou para a polícia militar, polícia civil, corpo de bombeiros, defesa civil e a poderosa Sociedade Amigos de Taiaçupeba. Afinal era nas dependências da ONG que a sensitiva Maria do Pião dava consultas e era capaz de adivinhar o futuro. Em uma situação de extrema gravidade como essa valia lançar mão de tudo, até mesmo do além para encontrar o médico desaparecido. O lufa lufa tomou conta de todos e até mesmo a direção da tevê se envolveu nos esforços para se conseguir um furo jornalístico, a localização do discípulo de Hipócrates, como dizia enfaticamente o culto e douto Zeca da Ivone, sócio presidente das Organizações Caramelo. Ele não iria poupar esforços para derrotar a concorrência e sair na frente, custasse o que custasse.Mandou abrir espaços na radio Carmelo e no Jornal de Taiaçupeba para o episódio. Chegou mesmo a colocar o seu jipão para incursões na Mata Atlântica do município de Mogi das Cruzes, atrás de possíveis esconderijos dos mal feitores. Ninguém estava dispensado e os jornalistas começaram a ligar para casa avisando que iriam passar a noite trabalhando e só voltariam depois que doutor Eduardo tivesse sido recuperado e desse uma entrevista exclusiva para o programa do Gibão, o de maior audiência da TV Caramelo. Estaria ele perdido, desmemoriado depois de ter sido visto na festa junina na casa do advogado Aparecido do Ó. ?
 
                                                     Diante do escarcéu da mídia local a população se reuniu no final da tarde no salão paroquial da igreja de Santa Cruz, e pediam ao padre Alberto que iniciasse uma vigília religiosa pela vida e integridade do doutor. Beatos e beatas imediatamente iniciaram a convocação das rezadeiras e as velas da igreja foram acesas. O povo começou a chegar na praça da igreja e em pouco tempo não havia mais espaço no salão. Só na rua. Imediatamente foi providenciado um serviço de som, luz e chegaram os jornalistas com o caminhão do link da tevê e os craques do Capela do Ribeirão Futebol Clube, liderados pelo capitão do time Regi, formaram um cordão de isolamento para permitir o trabalho dos jornalistas.  O estúdio da tevê foi montado nas escadarias da velha igreja colonial, e iniciada uma transmissão ao vivo sem hora para acabar. Jornalistas de outras tevês, rádios e jornais aglomeravam-se próximos ao posto de comando das investigações liderado pelo capitão Almada. Zé Ferro, o repórter mais investigativo de toda a região,. não se conformava em ficar parado na praça. Tinha um nome a zelar, afinal, foi ele que descobriu uma produtora clandestina de palmiteiros que derrubavam a Juçara na Serra do Mar, a máfia dos fornos  vendiam para postos de combustíveis carvão sem licença da Cetesb, e estourou uma imobiliária fantasma que grilava terras, falsificava documentos de legalidade, enganava os incautos que compravam  terrenos invadidos. Foi ele também que descobriu onde estava escondido o Cidão um matuto que insistia em caçar apesar dos esforços que o  grupo de escoteiros Curupira fazia para preservar a fauna da Mata Atlântica.
 
                                                    O fuzuê era geral,.alguém trouxe uma foto do médico para a praça e as crianças do Centro Integrado de Sustentabilidade Um Fio de Esperança  se juntaram para escrever faixas que foram afixadas no ponto final do ônibus da Transcel: SOLTEM NOSSO MÉDICO, QUEREMOS O DOUTOR BOLINHA DE VOLTA. O doutor do posto de saúde era um psiquiatra homeopata e que vivia receitando as bolinhas para os pacientes. Nada de remédio de caixinha, recomendava chá de carqueja, de erva de são joão,de comigo  ninguém pode e uma série de outras. Para se tomar uma bezetacilzinha na veia era uma luta. Doutor Bolinha era um bonachão de mais de cem quilos, e que teve seu nome várias vezes indicado para concorrer como vereador no movimento do Um Só Por Taiaçupeba. Gostava de longas noites de seresta regada a pinga com cambuci no bar do Padilha e estava sempre a disposição para atender a qualquer um, qualquer hora do dia ou da noite, e se necessário transportar o doente com o seu carro para o SUS de Mogi das Cruzes.Era querido por todos e ninguém podia dizer que não tinha provado um chazinho do doutor.
 
                                                    As dez da noite a tensão aumentou. O capitão Almada recebeu um rádio. A polícia tinha encontrado o carro do doutor Bolinha na estrada da Aroeira. Mau sinal. Imediatamente Zé Ferro entrou ao vivo no ar, depois da vinheta de plantão da TV Caramelo e divulgou o fato em primeira mão. Fez silêncio na praça. As rezas ficaram mais altas e algumas mulheres começaram a chorar. Os boatos corriam de um lado para o outro, eram originários no bar Ponto Vinte e para lá voltavam com versões cada vez mais contundentes. Tinha ou não tinha sangue no carro? Os documentos foram encontrados? A mãe do médico tinha tido uma síncope e foi hospitalizada? O Cidão tinha alguma coisa com isso? Muitas dessas perguntas eram respondidas pelo Modesto o dono da farmácia,que tinha uma rixa especial com doutor Bolinha responsável pela baixa venda dos medicamentos alopáticos e de caixinha.
 
                                                  Perto da meia noite, um rádio passado pela viatura da PM estrategicamente postada na confluência da SP 102 com a Mogi-Bertioga deu um alerta. Um carros se dirigia para Taiaçuepba com duas pessoas a bordo. O policial tinha identificado alguém com o médico. A praça abriu espaço para a chegada do veículo. Câmeras, microfones,   holofotes de alta potência, ´máquinas fotográficas, celulares, walk talks, e o Sandrão postado no alto da torre da Vivo. De lá ouviu-se o grito. ” O carro chegou !!!!!!! “Ludinho, o faz tudo do posto de saúde, desmaiou. Não resistiu a tanta emoção. Foi imediatamente carregado para o supermercado da Odete.
 
                                                   Estupefatos, desceram do carro o motorista, o Paulo Bartolomeu, que nas horas vagas era o quarda da reserva florestal Mahayana, e fazia uns bicos na direção ,e o assustado doutor Eduardo, sem saber o que estava acontecendo. O silêncio foi geral por alguns instantes, até que o intrépido repórter investigativo Zé Ferro, surgiu com o microfone em punho e a câmara da tevê manobrada pelo Raimundinho. A luz concentrou-se sobre repórter e entrevistado:
 
                                                   ” Senhoras e senhores telespectadores  da TV Caramelo de Taiaçupeba, estou, com exclusividade ao lado do médico que foi seqüestrado e agora, graças a Deus e a Santa Rita, está são e salvo no seio da comunidade. Doutor, quem o seqüestrou, soube que pediram uma indenização milionária para libertá-lo “
 
                                                   ” Zé, deve haver um engano…..”
 
                                                    ” Como um engano, até a polícia está a sua procura.!!Seu carro foi encontrado abandonado.”
 
                                                    “Você está equivocado, eu não fui seqüestrado, fui a São Paulo no carro do Paulão.
 
                                                    ” Onde você foi, o povo está desolado.”
 
                                                    ” Fui ao lançamento do livro contos médico-policiais dos meus ex-professores de medicina VICENTE AMATO NETO e JACYR PASTERNA.K. E nada mais aconteceu. “
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