O Paulo Bartholomeu é um mineiro, boa gente, bem humorado, que gosta de provar umas cachacinhas de Salinas é um torcedor fanático da Fórmula Um. O mineiro não perde uma prova na televisão, nem mesmo quando elas são disputadas na Ásia e aqui no Brasil são transmitidas de madrugada. `Paulão bota o despertador, ele ainda não usa essas modernidades de rádio relógio, e acorda para ver ” o brasileiro”". Não importa quem seja. Para o mineiro de Raul Soares, há sempre um brasileiro pilotando os carros de escuderias e marcas que ele não dá a menor importância. Desde o saudoso Ayrton Senna, o que vale mesmo é o homem que está no cockpit como digo eu, e na direção como diz o Paulo. Ele, e muito mais gente, acompanham passo a passo a corrida, e discutem apaixonadamente as brecadas e aceleradas dos bólidos nas pistas. Ele mesmo tinha até recentemente um Corcel II, original , com o qual fazia as viagens entre São Paulo e Belzonte e dizia toda vez que o encontrava lá no sítio, que o homem era mais importante do que a máquina, ainda que eu, apenas um curioso em automobilismo, quisesse argumentar que com um Ford Bigode nem Senna, nem Schumaher, nem Fangio, nem Pintacuda conseguiram vencer uma prova onde pontifica a tecnologia das fábricas de auto-imóveis. Isso não tirava a sua empolgação uma vez que o auge dos aficionados, sem dúvida é o Grande Prêmio do Brasil. É ali que as coisas se resolvem e os organizadores da Fórmula Um, já fizeram isso de propósito porque sabem do calor humano dos brasileiros e da importância da torcida para empurrar o carro para a vitória, diz Bartholomeu. Não adianta muito eu dizer a ele que é uma jogada de marketing, que isso tudo existe em função da geografia dos patrocinadores comerciais, etc. O que vale é a emoção do esporte e contra ele a razão não vale nada. Enfim prevalece sempre o apoio patriótico que os brasileiros devem dar ao piloto tupiniquim.
O autódromo de Interlagos completa este ano 48 anos. Foi inaugurado em 1940 com uma competição entre pilotos que dirigiam carros esportivos importados e o mais famoso deles era Chico Landi. De lá para cá as coisas mudaram muito e´a prova mais badalada é, indiscutivelmente, o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula Um. Para os organizadores do campeonato não interessa que ele se decida muito antes da prova final, como na época do Shumaher, porque isso derruba a audiência da tevê e o público perde o interesse.Enfim, é preciso manter a disputa acirrada mesmo que ela não exista. Este ano, depois da vitórias de Hamilton e a vantagem sobre Felipe Massa não havia o que decidir em Interlagos. O piloto da Mac Laren era o campeão virtual e viria ao Brasil para ” cumprir tabela “, uma vez que as possibilidades da Ferrari de Massa eram diminutas. Mas o espetáculo tem que continuar e alguns veículos que cobrem o campeonato começaram a criar formas de noticiar sem dizer o óbvio, ou seja, que o campeonato já tinha sido decidido. Que os marleteiros, publicitários, gestores das escuderias digam isso, é compreensível, o que não se aceita é que jornalistas esportivos entrem nessa onda e, pressionados sabe-se lá porque, ou por quem tentaram criar um falso clima de decisão em Interlagos. Alguns até abusaram da inteligência dos fanáticos torcedores da Fórmula Um.
A competição, aparentemente é de pilotos, e até um curioso como eu, é capaz de perceber que o campeonato de marcar é mais importante, valioso e prestigiado pelos organizadores. Prova disso são as montadoras de carros comuns usarem em sua publicidade para os motoristas comuns como eu cenas de seus bólidos nas pistas de Fórmula Um. Sem dúvida o campeonato tornou-se um empreendimento notável, com organização impecável, uma assessoria de imprensa competente que facilita sonoras dos pilotos e distribui para todo o mundo e globalizou o show de forma surpreendente. Duvido que alguém poderia imaginar uma prova disputada na China de Mao Tsé Tung, mas já estreou na China emergente, em um belíssimo autódromo. Certamente o Velho Timoneiro deve estar dando volta na tumba. A direção das equipes querem que a marca ganhe e para isso tem dois pilotos principais, e não tem dúvidas de determinar que um corra para ajudar o outro e não um contra o outro. Isso é mais uma das coisas que não consegui explicar para o patriótico Paulo Bartholomeu. Na sua ótica de aficionado e conhecedor dos carros nos mínimos detalhes técnicos, ele sempre descobre que estão sabotando o “brasileiro” uma conspiração para impedir que os melhores pilotos do mundo levantem o caneco em Interlagos. E o Paulão tem sempre razão;
Heródoto Barbeiro é jornalista autor de Manual de Jornalismo Esportivo, com Patrícia Rangel (Ed. Contexto)